Michel Camilo e “Rhapsody in Blue”


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Quando soube que Michel Camilo havia gravado “Rhapsody In Blue” com orquestra, fiquei mais do que curioso, pois todos os seus discos são excelentes e seu vigor nas interpretações é fantástico. Demorei para ouvir, mas a espera foi muito recompensada: o álbum é excelente e credito esta como a melhor interpretação de “Rhapsody In Blue” até hoje realizada


A música de George Gershwin marcou minha infância nos filmes da Sessão da Tarde. Só depois fui descobrir que, junto a seu irmão Ira Gershwin, seu legado era incrível. De todas as suas músicas, “Rhapsody In Blue” é uma daquelas de que mais gosto, talvez pela clarineta que antecipa o tema já na abertura ou pelos inúmeros desenhos animados em que foi usada. A Disney a utilizou em Fantasia 2000, com as imagens de sentido muito próximo da real intenção do compositor.

“Rhapsody In Blue” foi encomendada por Paul Whiteman para um concerto com sua orquestra. Quando foi executada pela primeira vez, não estava pronta e isso sempre me intrigou porque, tendo sido tocada pelo próprio George Gershwin ao piano, sempre imaginei o quanto de improvisação não aconteceu ali.

A peça foi composta como “a América (do Norte) vista de dentro de um trem”. Com isso em mente, fica claro que a clarineta da abertura é uma licença poética para o apito do trem avisando aos passageiros da saída da composição da estação. Para nós, ouvintes, é o início de uma viagem por diferentes paisagens, urbanas ou não, e uma composição do mais alto nível.

Entretanto, sempre achei muito presas as interpretações clássicas que ouvi, a maioria delas. Ao contrário, as jazzísticas tinham mais frescor, apesar de fugirem constantemente da parte escrita e usarem apenas o tema principal.


A “Rhapsody in Blue” de Michel Camilo

A articulação cristalina com a qual Michel Camilo interpreta “Rhapsody in Blue” vem naturalmente. Ele era uma criança prodígio quando se juntou à Sinfonia Nacional da República Dominicana aos dezesseis anos. Entretanto uma interpretação desse nível não se faz apenas com o solista. A Orquestra Sinfônica de Barcelona regida por Ernest Martinez Izquierdo está soberba. A orquestra pulsa, balança, “suinga” com Camilo. A respiração de todos os músicos dá um novo tom à obra.

Não se trata de uma releitura. A partitura é seguida, mas os tempos são como os que imaginava terem sido quando o próprio Gershwin a executou pela primeira vez. A locomotiva inicia com a clarineta e vai aos poucos aumentando sua velocidade, diminui em alguns pontos e retoma o caminho como um ser vivo. A orquestra parece exatamente isso, outro músico e não um conjunto de 95 deles: parece um só ser.

Com essa orquestra, ele ressuscita a composição marcante de George Gershwin com sua inflexão de jazz e significativas texturas de jazz orquestrais. O piano de cauda de Camilo tece um fio prateado pela peça, evocando a profunda sensação que vem enraizada na composição. Sem essas implicações emocionais, a peça não teria tido tanto impacto sobre nós durante a Era do Jazz.


As outras obras

A segunda obra de Gershwin incluída nesse programa é “Concerto in F: Allegro, Adagio – Andante con moto, Allegro Agitato”. Escrito apenas um ano depois de “Rhapsody in Blue”, essa obra de três movimentos enfatiza muito mais o ritmo do que seu antecessor. Com esse pedaço adicional, Camilo está livre para montar o “swing” e o balanço dos anos vinte praticamente “rugindo” com desenvoltura. A intensa movimentação rítmica do pianista – que foi percussionista da National Symphony – ajuda-o a interpretar essa peça com precisão.

É possível sentir o sincopado do ragtime enquanto a orquestra constrói o momento. No segundo movimento, um blues profundo transborda com o trompete aberto e os violinos carregando o tema com paixão. A interpretação de piano de Camilo carrega um poderoso golpe, particularmente no movimento “Allegro Agitato”, onde ele faz a sessão literalmente ferver.

A terceira obra, “Prelude No. 2”, foi originalmente intitulado “Blue Lullaby”. Aqui, Camilo faz um monólogo sonhador sem orquestra que desencadeia timidamente o feitiço mágico de Gershwin. O blues vem com sua textura suave com a qual Camilo fecha o álbum, com quietude. Ele capturou a paixão sincera nas composições de Gershwin, assim como a conexão rítmica do compositor com o início do jazz.

Ao final da audição fica uma sensação de que perdemos alguma coisa, senão a convivência com a genialidade com Gershwin, o fato de não termos presenciado tão magnífico trabalho pessoalmente. Como em todo concerto espetacular, só nos resta aplaudir de pé e pedir bis. Ou colocar para tocar outra vez…


Para saber mais sobre Michel Camilo e ler a entrevista exclusiva que ele concedeu à revista digital Teclas & Afins, clique aqui.

Alex Saba (www.alexsaba.com.bré tecladista, guitarrista, percussionista, compositor, arranjador e produtor com cinco discos solo e dois álbuns ao vivo, um com o Hora do Rush e outro com o A&B Duo, com participação de Guilherme Brício, lançados no exterior pelo selo Brancaleone Records. Produziu e dirigiu programas para o canal TVU no Rio de Janeiro e compôs trilhas para esses programas com o grupo Poly6, formado por 6 tecladistas/compositores. Foi colunista do site Baguete Diário e da revista Teclado e Áudio.

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