Thijs Van Leer, Focus e o sucesso holandês


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O Focus pertence a uma raça diferente, contemporânea, de músicos. Para início de conversa, são europeus do continente, ou seja, não fazem parte do British Rock. Um grupo de rock europeu e ainda mais holandês, era considerado uma curiosidade, uma “avis rara”, nunca um candidato sério às listas de “melhores” ou às paradas de “mais vendidos”. No entanto, a banda ocupou os dois lugares com assiduidade e naturalidade.


Nos idos dos 70, apareceu uma raça nova de rockers, como o Focus, com algo novo em comum: o conservatório de música. E foi de lá que surgiu nosso primeiro personagem: Thijs Van Leer, com 19 anos em 1969, colando grau com distinção em piano, arranjo e teoria. Thijs Van Leer era um músico aplicado e com interesses múltiplos: além do curso no Conservatório Real de Amsterdam, estudou História de Arte na Universidade de Amsterdam, órgão e música renascentista com o maestro Antohny Van Der Horst e dirigiu uma banda de jazz com colegas de colégio.

Além de tudo isso, era um fã exaltado do Traffic, especialmente de Stevie Winwood. Pois foi com a ideia não muito clara de fazer “um Traffic holandês” que ele se uniu aos amigos Martin Dresden, baixista, e Hans Cleuver, baterista. Entretanto, o primeiro emprego deles não teve nada a ver com o Traffic: foram chamados a integrar a banda da versão holandesa do musical Hair, aquele da nudez, flores no cabelo e da famosa canção “Aquarius”, mas isso lhes trouxe bons contatos, um convite para um teste e, afinal, a gravação de um LP.


Das origens a 1972

A Europa estava ansiosa por produzir rock próprio, autônomo, que pudesse fazer frente ao rock pesado inglês, a grande onda do momento. Durante a gravação do primeiro disco – In And Out Focus – aconteceram duas coisas interessantes: Thijs Van Leer descobriu que sabia cantar e que conseguia fazer o yodel, vocalização ondulante e complicada, típica da música dos Alpes. Acho difícil imaginar que só no estúdio alguém descubra isso e mais ainda que só vá usar no segundo disco, mas é a lenda. A segunda coisa é que o amigo Jan Akkerman, então com 24 anos, guitarrista, violonista e tocador de alaúde formado pelo Liceu Musical de Amsterdam, uniu-se ao grupo.

Como costuma acontecer, o sucesso não veio, não na escala que o recém batizado Focus – “um nome internacional, sintético”, segundo Thijs Van Leer – e sua gravadora esperavam. Os holandeses garantiram as boas vendas do single “House Of The King”, apenas uma amostra do futuro som do grupo, mas a invasão a Londres e Nova York não se consumou.

Muito desiludido, Jan Akkerman abandonou o grupo e foi se unir ao seu antigo colega de conjunto de baile, o baterista Pierre Van Der Linden, para formarem um novo grupo junto com o baixista Cyril Havermans. E, então, o improvável aconteceu: Thijs Van Leer decidiu que esse grupo era melhor que o seu e se mudou para a companhia de Akkerman & Cia., levando consigo o nome Focus.

O lançamento de Moving Waves, segundo álbum do “novo” Focus, comprovou o acerto dessa escolha. O disco – considerado por alguns como o melhor disco do grupo, com “Hocus Pocus” e o tal vocal yodel – foi lançado na Holanda como Focus 2 e apenas nos Estados Unidos com o título que o tornou conhecido.

Com o terreno consideravelmente preparado por grupos ingleses, como Yes, Emerson, Lake & Palmer e King Crimson, o som do Focus, intrincado, melódico, quase erudito, se tornou a sensação de Londres. Os críticos acolheram “Eruption”, a suíte-rock sobre o mito de Orfeu que ocupa todo um lado de Moving Waves, como “uma obra-prima fundamental do rock contemporâneo”. Os elementos estavam todos no lugar, e o catalisador tinha sido Pierre Van Der Linden, músico 90% erudito, ex-integrante da Orquestra de Ópera de Amsterdam.



De 1972 a 1975

O ano de 1972 foi o da grande virada para o Focus. A banda excursionou pela Grã-Bretanha, colecionando elogios e casas lotadas. O sinlge “Sylvia”, tirado do álbum duplo Focus 3, chegou ao primeiro lugar na parada inglesa e – surpresa das surpresas – na América também. Foi um ano de mudanças: o contido Cyril Havermans deixou o grupo para seguir carreira individual e, em seu lugar, entrou outro agente de transformações, o baixista Bert Ruiter, com 26 anos, autodidata, nenhuma base clássica, mas muito rock e pop, música de dança.


“Eles nem deviam gravar em estúdios, pois são absolutamente perfeitos num palco”.

Jornal Melody Maker em referência a usarem os recursos de estúdio no palco, sem exageros

Focus 3 é uma obra-prima do porte de Moving Waves, com duas músicas que se tornaram sucesso imediato: “Love Remembered”, muito usada em comercias da época, e a citada “Sylvia”. Além disso, trazia a épica “Anonymous”, longa e elaborada, dividida entre dois lados do LP duplo, que saiu aqui no Brasil pela metade, expurgado de algumas tantas coisas.

“Sylvia” é uma balada de Thijs Van Leer, solada pela melodiosa guitarra de Jan Akkerman. A estrutura é totalmente clássica, como quase tudo que o Focus fez. Há um pouquinho de tudo: a citada guitarra, os vocais de fundo e o tradicional órgão Hammond B3. Na introdução feita pela guitarra e órgão, está a estrutura de toda a música que sofre variações durante o desenvolvimento.

Quando Focus 3 foi lançado, incluíram a música “House Of The King” como última faixa, mas nem Bert Ruiter nem Pierre Van Der Linden tocaram nela, pois era uma versão gravada em 1969 para o álbum In And Out Focus.

O conflito inevitável começou a roer o grupo, lentamente, durante a primeira excursão americana…. (para ler toda a matéria de Alex Saba sobre Thijs Van Leer e o Focus, acesse a edição 58 da revista digital gratuita Teclas & Afins clicando aqui!).


Alex Saba

Tecladista, guitarrista, percussionista, compositor, arranjador e produtor com quatro discos instrumentais solo e um disco ao vivo com sua banda Hora do Rush, lançados no exterior pelo selo Brancaleone Records. Produziu e dirigiu programas para o canal TVU no Rio de Janeiro e compôs trilhas para esses programas com o grupo Poly6, formado por 6 tecladistas/compositores. Foi colunista do site Baguete Diário e da revista Teclado e Áudio.
www.alexsaba.com.br


Teclas & Afins 64 - Marco Bernardo

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