Vangelis e Blade Runner


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O grego Vangelis, longe de ser um replicante, compôs a icônica trilha sonora de Blade Runner utilizando muito mais a intuição do que a técnica.

A maior contribuição da carreira cinematográfica de Vangelis veio com Blade Runner, do diretor Ridley Scott. É quase impossível dissociar o filme da trilha sonora, apesar de o grego ter composto os temas somente após ver o material filmado, em dezembro de 1981.

Com o enredo situado em um cenário distópico e futurista, castigado por uma chuva incessante, Vangelis ilustrou o filme com uma trilha musical que ajuda a adensar a carga energética das imagens. O processo de composição e gravação foi especial: mal o filme tinha sido montado em versão quase definitiva, os técnicos do estúdio de cinema sincronizaram o mixer e a mesa de montagem do filme e Vangelis se sentou em frente aos instrumentos que tinha no estúdio para compor em função das imagens que observava, utilizando os sintetizadores da época adaptando-os ao que se imaginava serem os sons de um mundo futuro, mas incorporando instrumentos familiares, como harpas orientais e saxofone.

O setup utilizado contava com sintetizador Yamaha CS-80, Roland VP-330 VocoderPlus, Fender  Rhodes; Prophet 10, Emulator, Yamaha GS-1, Roland Jupiter 4, ProMars CompuPhonic e sequencers Roland CSQ- 600, CSQ-100 e System-104.além de um processador Lexicon 224. A composição e a gravação duraram quatro meses e a trilha sonora entrou para a história, rivalizando com a inovadora estética do filme. Tanto que, no trailer de Blade Runner 2049 (a refilmagem do clássico), a primeira sonoridade faz o espectador regressar à icônica criação de Vangelis.

 

 

Vangelis

Nascido em Agria, perto da cidade portuária grega de Volos, na Grécia, em 29 de março de 1943, Evangelos Odysseas Papathanassiou, mais conhecido como Vangelis, demonstrou seu talento ainda criança. Com apenas quatro anos, já compunha e tinha extrema facilidade em compreender a linguagem do piano. Seus pais então o encorajaram a estudar com um professor particular. Ele tentou. Mas o método convencional não o instigava. Raramente, seguia instruções.

No entanto, aos seis anos, os seus pais o colocaram em uma escola de música, na capital, Atenas. Esse passo seria seguido pelo estudo de pintura, arte que ainda pratica, na Escola de Belas Artes da cidade. Aos doze anos, passou a se interessar pelo jazz e pelo rock-and-roll, formando várias bandas. Entre outras, durante a década de  1960, fez parte da The Formynx, que causou sensação na Grécia com o seu pop-rock.  O grupo tornou-se sucesso de público, conseguindo encher os estádios gregos com milhares de fãs. Cantando em inglês, com  letras redigidas por Vangelis, a banda lançou nove singles de êxito.

Vangelis ao pianoEm 1968, Vangelis se juntou aos seus compatriotas Demis Roussos, Loukas Sideras, e Anargyros Kouloris, para fundar a banda de rock progressivo Aphrodite’s Child. Ao single “Rain and Tears”, seguiu-se a gravação de dois álbuns, que venderam aproximadamente 20 milhões de cópias. Entre eles, 666, de 1972, baseado no livro bíblico, contando com a participação da cantora grega Irene Papas. No entanto, desentendimentos entre os membros levaram que, um ano antes do trabalho ser lançado, o grupo se separasse. Mesmo assim, a parceria entre Roussos e Vangelis  permaneceu, com o tecladista produzindo várias iniciativas musicais de Roussos.

Em 1974, após dedicar-se a trilhas sonoras para o cinema francês e a algumas bandas esporádicas, o grego aproximou-se do YES, rapidamente se tornando amigo do vocalista Jon Anderson. Com a saída do tecladista Rick Wakeman, considerou a hipótese de tornar-se membro do grupo, mas, vivendo em Londres, assinou um contrato com a editora RCA Records e criou seu próprio estúdio – Nemo Studios.

Cinco álbuns foram lançados até ao fim da década: Heaven and Hell (1975), Albedo 0.39 (1976), Spiral (1977), Beaubourg (1978) e China (1979). No fim da década de 1970, Vangelis voltou a juntar-se à atriz e cantora Irene Papas para gravar Odes (1979), sucesso retumbante na Grécia por conta da vertente folclórica do trabalho. Se sucederam trabalhos como See You Later (1980), Soil Festivities (1984), Invisible Connections (1985), Mask (1985), Rapsodies (1986, com Papas) e Direct (1988).

A década de 1980 ainda assistiu à composição da música para a edição especial de Cosmos: A Personal Voyage (1980), do cientista Carl Sagan, e os trabalhos da dupla com Jon Anderson, com os álbuns Short Stories (1980), The Friends of Mr. Cairo (1981) e Private Collection (1983).

Toda essa atividade não impediu a colaboração do artista com o cinema, área em que era muito querido e já reconhecido. Para isso, contribuíram as trilhas sonoras de Do You Hear the Dogs Barking? (1975, de François Reichenbach), o filme Missing (1982, do greco-francês Costa-Gavras), o documentário Pablo Picasso Painter (1981), Sauvage et Beau (1984) e De Nuremberg à Nuremberg (1989), três trabalhos do seu amigo Fréderic Rossif ), além de Antarctica (1983, de Koreyoshi Kurahara) e The Bounty (1984, de Roger Donaldson).

O melhor da carreira de Vangelis nesse segmento, no entanto, surgiria a partir da trilha sonora do filme Chariots of Fire (1981), do cineasta Hugh Hudson. Apesar de a história do filme passar na década de 1920, a escolha do grego foi heterodoxa, sustentada no trabalho com sintetizadores. O  rabalho rendeu um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original para Vangelis, além do prêmio de  elhor Filme para a película.

 

Atividade pós-replicantes

Novamente a convite de Ridley Scott, Vangelis voltaria às trilhas sonoras em 1492: Conquest of Paradise (1992), filme realizado para celebrar os 500 anos da viagem de Cristóvão Colombo à América. Seguiram-se cinco álbuns: The City (1990), Voices (1995), Oceanic (1996), Foros Timi Ston
Greco (1995) e El Greco (1998). Além disso, colaborou em Bitter Moon (1992, de Roman Polanski), The Plague (1992, do argentino Luis Puenzo), e Cavafy (1996, do compatriota Yannis Smaragdis), além de uma série de documentários do ecologista francês Jacques Costeau.

A reboque do sucesso de Chariots of Fire, compôs música para diversos eventos desportivos, como o Sport Aid (1986), o Campeonato do Mundo de Atletismo (1997); os Jogos Olímpicos (2000 e 2004), e o hino do Mundial de futebol (2002). Isso não o impediu de outros compromissos, tais como a composição da sinfonia Mythodea (2001), e Alexander (2004, de Oliver Stone).

Recentemente, compôs peças musicais para o documentário sobre a missão espacial Rosetta. Entre as honrarias que recebeu destacam-se as de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras e da Legião de Honra francesas, além de ter um pequeno planeta com o seu nome e uma medalha concedida pela NASA pelos serviços prestados.

Jeito de poeta, às vezes introvertido, outras reflexivo, o compositor de 75 anos recém-completados não deixa de expressar os vestígios culturais de sua terra natal. Talvez seja filósofo por natureza. Sem dúvida alguma, a sensibilidade é um dos fatores que permeiam não apenas sua música, mas a maneira como analisa o cenário artístico atual e a sociedade.

 

Para ler a entrevista exclusiva que fizemos com Vangelis, acesse gratuitamente a edição 49 da revista digital Teclas & Afins!

 

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