O caminho de ouro para a improvisação


Um método prático para construir frases de improvisação no jazz combinando notas do acorde e aproximações melódicas


Muito se diz que a improvisação de jazz é baseada em escalas que devem ser aplicadas de acordo com a tonalidade e o acorde em questão em um determinado compasso, e isso é verdade. As escalas formam uma aura com todas as possibilidades de notas que estão relacionadas a um determinado momento musical, e as notas do acorde são ainda mais relevantes, pois representam um momento de resolução melódica: são notas-alvo (target notes). No entanto, em inúmeras situações na minha prática pedagógica ao longo de anos, conheci estudantes e professores que, apesar de discutirem a aplicação das escalas e das notas do acorde, tinham dificuldade em produzir resultados. A coluna de hoje mostra uma solução prática para o aprendiz começar a desenvolver linhas melódicas improvisadas.


Notas-alvo e notas de aproximação melódica

Notas-alvo são, basicamente, as notas do acorde, em especial aquelas que não são extensões (os intervalos de fundamental, terça, quinta e oitava). Tive contato com o termo “aproximação melódica” há muitos anos em um curso com Roberto Sion. Basicamente, aproximações melódicas são notas de caráter dissonante e preparatório que são colocadas antes de uma outra nota que terá o papel de resolvêlas, geralmente notas-alvo. As notas de aproximação podem ser ascendentes (subir para atingir a nota alvo) ou descendentes (descer para atingir a nota alvo) e ter caráter cromático (movimento por semitons) ou diatônico (notas da escala do acorde – por isso é importante saber a escala do acorde).

Neste primeiro exemplo, vemos as notas-alvo. Elas poderiam estar em qualquer sequência, descendente, ascendente, mescladas, e em qualquer posição. Mas, neste exemplo, colocamos todas de forma ascendente e na posição fundamental.

Observe que, nos acordes com sétima maior, geralmente a sexta funciona melhor como nota alvo. Nos exemplos seguintes, prepararemos cada uma das notas da sequência acima demonstrada com notas de aproximação melódica. O desenvolvimento melódico do jazz normalmente ocorre por meio de sequências de colcheias. Isso é ideal para este exemplo, pois, no caso, as notas alvo cairão sempre na cabeça dos tempos dos compassos e as notas de aproximação melódica cairão sempre nos contratempos.

No primeiro exemplo, aplicamos notas de aproximação melódica cromática descendente, aproximando-se por semitom abaixo até atingir a nota alvo. O efeito pode soar um pouco dissonante, e o ponto é que, normalmente, não utilizamos apenas um tipo de movimento (ou cromático ou diatônico), nem nos movemos sempre para a mesma direção.

No próximo exemplo, utilizamos notas de aproximação cromática descendente:

No exemplo a seguir, utilizamos notas de aproximação diatônica ascendente. Observe que durante o acorde Cmaj7, não existe uma nota para ser colocada antes de Lá, pois já estamos tocando Sol.

Finalmente, no próximo exemplo, utilizamos notas de aproximação diatônica ascendente.

Conforme esclarecemos antes, normalmente utilizamos uma combinação de diferentes tipos de movimentos. Neste último exemplo, demonstraremos uma combinação de movimentos ascendentes, cromáticos e diatônicos, e descendentes, cromáticos e diatônicos.

Este último exemplo se parece mais do que os anteriores com o que acontece numa improvisação de jazz. Formando uma série de colcheias, colocamos notas-alvo na cabeça do tempo e, nos contratempos, preparamos essas notas-alvo com uma variedade de tipos de aproximação melódica, seja com base na escala do acorde (aproximação diatônica) ou com coloração cromática.

Alguns pontos que se diferenciam dos exemplos aqui apresentados são: a) Mais frequentemente, linhas melódicas escalares (por graus conjuntos) são descendentes e não ascendentes. Isso significa que nossas notas-alvo formariam um desenho melódico mais eficiente se esse “arpejo” formado pela sua sequência fosse descendente.

b) Músicos avançados frequentemente pensam em notas-alvo apenas nos tempos 1 e 3 do compasso, utilizando até três notas de aproximação melódica antes de atingir esses pontos, inclusive, em certos momentos, trazendo-as de diferentes direções ao mesmo tempo (enclosure). Dito isso, neste momento, é mais conveniente para nós, como passo inicial, pensar em notas-alvo a cada tempo.

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Adolfo Mendonça

Pianista, educador musical e pesquisador especializado na pedagogia do jazz e improvisação, descrito pela revista americana JAZZIZ (Winter 2024) como “brilhante músico que evoca Chick Corea em sua fase mais lírica”. Professor de música da American University in Cairo (Egito); ex-Diretor de Estudos do Jazz da University of Minnesota (Morris, EUA); ex-professor do Conservatório Municipal de Guarulhos. Mestre em performance de jazz pela University of South Florida (EUA). Realizou concertos em festivais e jazz clubs nos Estados Unidos, França, Egito, México, Chile e Brasil. Colaborou gravando/tocando com músicos como Randy Brecker, Romero Lubambo, Clarice Assad, Remy Le Boeuf, dentre diversos outros. Autor do álbum Brazilian Childhood (2023), disponível no Spotify.

www.adolfomendonca.com

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