De renegado a ilustre convidado


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O uso e a importância dada aos instrumentos de teclado na igreja, desde seus primórdios até os dias de hoje

Obviamente, temos mais de uma categoria de instrumentos de teclado, pois esse é um nome genérico. Temos vários instrumentos acionados por teclas, sendo os mais conhecidos o órgão, o piano, o cravo (em inglês: harpsichord), o acordeon, e talvez alguns ainda conheçam os mais antigos: a espineta e o clavicórdio, por exemplo. Assim sendo, temos que delimitar para os instrumentos usuais no contexto da música na igreja: o órgão, o piano, e seus irmãos atuais, os teclados eletrônicos.

Possíveis origens

Alguns defendem que os primórdios estejam na antiga flauta-pan, instrumento relativamente bem conhecido entre nós e usado ainda hoje, em que pequenos tubos de madeira de tamanhos diversos são unidos lado a lado e o executante os sopra obtendo o som desejado. O órgão descenderia dele, sendo, então, uma espécie de grande flauta, diferenciada por ser acionada por teclas – que eram, a princípio, tiras de madeira – e diversos mecanismos até os tubos sonoros.

A origem do órgão remonta ao século 3º a.C., quando Ctesibios de Alexandria, um engenheiro da Grécia antiga, cria um instrumento que consistia numa caixa de água que funcionava como uma bomba que impulsionava o ar, acionada manualmente, e dispunha de um grande teclado controlando a saída do ar pelos tubos – esse instrumento ficou conhecido como Hidraulos. Mais tarde, um engenheiro romano, por volta de 20 a.C., o modifica para um sistema por foles que promoviam o movimento do ar para os tubos.

O órgão de tubos passou a ser usado amplamente no império romano em seus eventos e festividades. Após a queda do império romano, o órgão caiu em desuso. Somente na Idade Média o órgão pneumático é introduzido na igreja, por volta do século 8º. Não foi sem resistência que o instrumento foi introduzido nas liturgias cristãs, tanto na tradição católica romana, quanto na vertente protestante mais radical que chegou a abolir completamente o seu uso. Alguns chegaram a destruir órgãos a fim de utilizar seu material para outros usos.

A música vocal era a única música permitida e considerada sacra, o órgão não era considerado útil para alguns opositores, que consideravam que poderia atrapalhar o claro entendimento da palavra, e, às vezes, ele teria uma conotação profana por associação a festas populares ou ainda pagãs de herança greco-romanas. No início, o órgão era o único instrumento de teclas viável, e este teve uso limitado na igreja, apenas com a função de apoiar o canto; dobrar as vozes, não tendo nenhum arranjo especial para ele. Com algum avanço, ao órgão foi permitido tocar em alguns momentos preparatórios de maneira autônoma, sem as vozes, os chamados prelúdios, interlúdios, por exemplo.

Contudo, o uso do instrumento foi crescente, e o famoso Concílio de Trento, século 16, teve que intervir e decidir sobre seu uso em toda a Europa, consolidando sua importância e vínculo com a música sacra até hoje. Dessa forma, embora o órgão não tenha origem religiosa, sacra, cristã, como queiram chamar, ele passou a ser associado a música de igreja e ser aceito. Por ser um instrumento imponente em sonoridade nas catedrais, harmônico, ideal para acompanhar as vozes solistas e corais, e ainda ter participações próprias como solos, sem falar dos órgãos portáteis que floresceram, o instrumento se torna o principal e talvez o único no uso pelas igrejas.

O novo concorrente

Outro instrumento amplamente usado por ser versátil é o piano. Esse instrumento, inventado no início do século 18 pelo italiano Bartolomeu Cristofori, foi criado para atender às novas tendências musicais. Os compositores estavam querendo um instrumento harmônico que oferecesse expressividade dinâmica – crescendo e diminuendo, forte e fraco. Até então, o instrumento de teclado dominante era o cravo. Presente nas salas dos nobres, em suas festas, jantares e danças, nas orquestras de concerto, acompanhando os cantores, enfim, o cravo foi um instrumento muito popular nos séculos 16 e 17 por toda a Europa e a América.

Cabia-lhe o papel da condução da harmonia, e muitos cravistas eram grandes improvisadores e harmonistas, assim como os bons organistas também o eram. Nomes como Couperin, Gustav Leonhardt, grande cravistas, D. Buxtehude e J.S.Bach – este muito mais respeitado como organista do que como compositor a época. Mas, o cravo não estava muito relacionado à música da igreja como o órgão, por alguns fatores principais: sonoridade mais estridente, beliscada e de curta duração, timbre que não exprimia a devida solenidade e que não sustentava o canto como se fazia necessário na igreja; conceitos opostos ao órgão. Além disso, o cravo estava muito associado à música profana em geral e da aristocracia.

Diante disso, o piano se torna um instrumento eloquente, capaz de sustentar a harmonia e, mais importante, tinha possibilidades dinâmicas controladas pelo músico, um avanço para os novos estilos musicais que surgiam. O piano desbanca o cravo e se torna hegemônico já no início do século 19. Além da capacidade harmônica, maior extensão em oitavas, sonoridade maleável e adaptável a qualquer estilo musical, uma característica que gerou sucesso e aceitação foi seu apelo às emoções pelas suas possibilidades expressivas.

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Silas Palermo

Formado em Piano Erudito pelo Conservatório Musical Beethoven e em Piano Popular pela ULM 1991, Bacharel em Piano pela Universidade Fundação Lusíadas, estudou Música Contemporânea com Gilberto Mendes e Composição com Edmundo Villani-Cortês. Tem Licenciatura em Artes/Música, é Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Doutorando em Música pela USP. Professor no Instituto Canzion Atlanta/USA, na Unisantos – Universidade Católica de Santos e na Escola Técnica de Música e Dança IRS de Cubatão. Foi produtor musical e arranjador da MK Publicitá, do meio gospel, onde, dentre tantas gravações, o CD Jesus, Fonte de Alegria com a música “Glorifica” teve grande aceitação e o Disco de Ouro pelo Projeto Vida Nova de Irajá.

www.silaspalermo.com – www.youtube.com/SilasPalermo – www.instagram.com/silaspalermo

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