Sons e Tons de Ricardo Breim


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Ricardo Breim registra sua experiência como educador musical e lança álbum de canções singular


Compositor, arranjador, pianista e educador musical, Ricardo Breim lança, pelo Selo Sesc, Sons e Tons, álbum com faixas inéditas de seu repertório. A maioria das músicas nasceu com fins pedagógicos, em estreita conexão com as concepções do autor, que diz: “Sinto-me músico e educador musical o tempo todo, seja no palco ou na sala de aula.” Produzido por Swami Jr. e Camilo Carrara, o álbum contém dezoito canções, oito delas com parceiros compositores ou intérpretes. Arnaldo Antunes, Ana Amélia Guimarães, Chico César, Diego Ochs, Luiz Tatit, Ina, Mônica Salmaso, Ná Ozzetti, Stella Franco, Zeca Baleiro e Zé Miguel Wisnik, assim como outros músicos do projeto, estão vinculados, de alguma maneira, ao percurso da escola Espaço Musical, dirigida por Breim há quarenta anos.

Quando passou a se interessar intensamente pela composição de canções, o professor passou a tomar como ponto de partida as inúmeras melodias que havia composto para utilizar em sala de aula. “O álbum nasce exatamente disto, o que o faz único”, diz José Miguel Wisnik, e descreve: “Os exercícios transmutam-se em verdadeiras canções. Bebendo do próprio veneno de seus desafios pedagógicos, o mestre revela-se um mago, e o feitiço começa a trabalhar a favor do feiticeiro”.

Entrevistamos Ricard Breim para saber um pouco mais desse lançamento.

O álbum é feito de canções compostas durante muitas épocas. Como surgiu a ideia de reunir tudo e lançar um disco?

Sempre tive essa motivação de compor música para a sala de aula, porque, desde o início, aprendi a dar aula dessa maneira, aproveitando músicas que já existem, que as pessoas conhecem, por exemplo, em aulas de percepção musical que eu dava no coral da USP. Fui estendendo essa ideia para o ensino de outras coisas da música e, para isso, quando eu não encontrava músicas conhecidas, não lembrava de coisas que serviam para aquilo que eu queria ensinar, eu compunha. Essa ideia foi se desenvolvendo e fui colecionando muitas coisas, algumas até que aproveitei pouco, porque, às vezes, achei que aquilo não estava muito bom para a sala de aula. Como músico, no momento inicial, meu interesse era em ser arranjador, depois me interessei mais em compor – quando comecei a compor para a sala de aula. Tive uma fase de improvisador em que eu gostava de me sentar ao piano e ficar tocando sem tomar por referência nenhuma música conhecida, mas improvisar mais livremente. E, nesse tempo todo, fui não só compondo coisas, mas desenvolvendo metodologias, mas aquela coisa muito caseira, muito contida, nas minhas próprias aulas. As coisas que davam certo eu tentava compartilhar com os professores da escola, mas, na verdade, quem usava mais as ideias era eu mesmo. Desenvolvi materiais e apostilas. Chegou um momento, em meados dos anos 90, em que eu olhava para tudo aquilo e pensava: “O que faço com isso? Tem que dar um acabamento melhor, mas não sei, estou sem critério para priorizar isso, que direção essa coisa toma…”. Então, resolvi fazer um mestrado, em que o Luiz Tatit foi meu orientador. “Se o Tatit vai me orientar, posso fazer um trabalho para tentar complementar a teoria dele sobre canção, já que eu, há muito tempo, gosto de abordar a relação entre letra e harmonia nas minhas aulas, e vejo que o trabalho do Tatit é mais sobre a ligação da letra com a melodia”. Entrei motivado por isso, e foi um momento em que se intensificou o meu interesse por educação musical. Sempre falo que fui migrando… Eu era um professor de música, que foi se tornando um educador musical, porque passei a me interessar mais na reflexão, inclusive, a respeito do papel que a música faz e tem na formação do ser humano. E acabei desenvolvendo um mestrado mais voltado para isso mesmo. Mesmo sem mergulhar nessa coisa da harmonia com a letra, foi uma fase em que me liguei muito em produzir texto, porque, na universidade, toda avaliação é feita por textos, tem que escrever as coisas. Todas as disciplinas pedem que se tenha monografias para avaliação. E acredito que isso me aproximou mais da ideia de compor canção, que era uma coisa que eu nunca tinha conseguido. Nunca tinha feito uma letra decente até então. Mas, nessa época, comecei a perceber que tinha algumas coisas que eu nunca tinha experimentado e, quando descobri, começou a dar certo, comecei a compor. Passei anos me motivando a pegar as composições para sala de aula anteriores e ver quais eram “cancionáveis”, quais eu poderia transformar em canção. Fui fazendo isso e, logo cedo, senti que, se esse negócio desse certo, eu teria que gravar um disco de canções. Isso começou em 1998 ou 1999, e só em 2017, no meio de 2017, é que tive um insight: “Agora tenho que fazer mesmo! Chega de colocar esse projeto lá no fim da fila! Preciso gravar!”. E eu tinha, no fundo, duas motivações maiores. A primeira era “preciso registrar essas músicas, porque eu não anoto, não gravo e, daqui a pouco, vou começar a esquecer”. E a outra motivação é que eu percebia, como diretor da escola, que eu precisava revitalizar a minha imagem de diretor de escola que era músico. As pessoas que estudavam aqui nem sabiam quem eu era, se eu tocava algum instrumento, o que eu fazia. Então, pensei: “Se eu fizer esse trabalho de gravar as canções, ‘mato dois coelhos’”. E isso foi muito lento. Conversei com o Swami Junior, conversei com o Sasha (Amback), que tinha sido meu aluno aqui em São Paulo. Eu tinha uma ideia antiga de que, quando eu fosse fazer um trabalho com as canções, seria com ele. Mas comecei devagar… Tive que resolver alguns problemas de saúde, que fizeram tudo ir muito devagarinho. E aí, nesse meio tempo, pintou o Camilo Carrara, que voltou de uma viagem, soube do projeto, me procurou, já se integrou na turma e passou a fazer um papel que eu achava que eu ia fazer com o Sasha. Mas, no fim, acabei fazendo mais com ele, porque ele mexe bem com o Logic. Ele trazia o computador dele, e a gente foi levantando os arranjos. Até então, era para ser um disco caseiro: eu ia usar uma graninha que eu tinha guardada, que era pequena, mas que eu achava que dava. E aí veio a pandemia. Então, passei 2020 sem me encontrar com o Camilo. Pensei: “Acho melhor aprender a mexer nesse programa”. Instalei no meu computador e tentei continuar o que a gente estava fazendo, bem devagarinho, mas consegui levantar mais um ou outro arranjo.

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E como o selo SESC soube do projeto?

A Stella (Franco), que é historiadora e minha esposa atual, falou: “Tenho umas ex-
orientandas que trabalham no SESC. Não seria legal fazer um contato e descobrir quem cuida do selo? Você podia falar do seu disco, quem sabe pinta algum interesse…”. Respondi: “Ninguém vai se interessar por um disco de educador, mas vamos tentar, já que você tem o contato”. Mas, em dezembro de 2020, acabei numa reunião com o Wagner Palazzi e o Raul Lorenzeti, que estavam cuidando do selo Sesc, e eles me fizeram várias perguntas. No fim, o Wagner queria saber quando eu pretendia gravar. Falei: “não sei ainda! Por que você está me perguntando?”. Ele falou: “Se você está pretendendo gravar agora em 2021, então esquece, não dá para pensar em nada. Mas se você puder esperar até junho – seis meses mais ou menos – posso te dar alguma resposta sobre a possibilidade de fazer isso aqui no SESC”. E eu respondi: “Para o tempo que eu tenho fazendo isso, esperar seis meses é como se você estivesse falando amanhã, porque não vou parar de fazer o que estou fazendo. Lógico que posso esperar!”. E não deu outra: quando deu junho, eles me procuraram, o SESC topou fazer. E então começou uma fase mais burocrática, de contrato, e o disco virou um projeto muito maior, com participantes conhecidos, com mais grana para cuidar melhor dos arranjos. Ganhou outra dimensão! E eu ficava muito dividido, porque há muitos anos renunciei ao palco para assumir a sala de aula. Sinto que tenho uma missão como educador, tenho que ir em frente com esse negócio. O Grupo Rumo, do qual eu tinha participado, vivia fazendo os “revivals” depois que acabou e cheguei a participar de alguns, mas chegou uma hora em que falei para o Geraldo Leite, que era o cara que cuidava disso: “Não vou participar, não tem a ver, é outro rumo, quando eu entrei isso aí já existia, estou em um outro momento…”. Então, foi uma surpresa: com meu próprio trabalho de composição, me vi às voltas com a necessidade de fazer show de lançamento. Me lembro que cheguei para o Raul e falei: “Mas tem que fazer mesmo esse show de lançamento?” (risos). Ele arregalou os olhos porque, na verdade, é o que todo mundo quer quando grava: lançar o disco! Ele se admirou de eu estar questionando, mas a verdade é que entrei nessa coisa e foi uma experiência muito legal (continua na edição 119 da revista digital Teclas & Afins).

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